Grupo Figueira da Glete

  Cantinho dos Gletianos da História Natural, da Química e da Psicologia Experimental
IN MEMORIAN

José Vicente Valarelli – o Amigo

             

        

Agora vamos falar do Zé, como sempre o conhecemos, como o amigo querido, o amigo de sempre, o amigo das alegrias e dos problemas, o amigo de compartilhar, de dividir aflições, de aceitação mutua sem preconceitos, do Amigo com A maiúsculo.

Conhecemos o Zé e sua família em nosso primeiro acampamento, em Foz do Iguaçu, em 1969 – 31 anos de convivência. Éramos novatos e eles veteranos de muitos campings pela Europa a fora. Com dois filhos menores do que os nossos: Leandro e Leonardo.

Ainda não era um camping, era uma clareira no mato apenas, e nos tornamos um grupo: nós quatro, os cinco do primo Décio e eles quatro: 13 pessoas dispostas a viver a aventura de acampar, que na época engatinhava. 

Empatia logo ao primeiro contato. Zé como sempre distraído e desligado, conseguiu derrubar a mesma árvore, por três vezes, com seu fusquinha. E passou a ser chamado de “Prof. Pardal”, um apelido que entre nós durou muito tempo. Também nesse acampamento ele esqueceu uma lata de leite condensado aberta e quase as formigas nos carregam a todos.  

Os dias foram passando, a amizade foi se solidificando e fomos até Assunção do Paraguai, agora com duas barracas apenas. Acampamos no “Ibirapuera” de lá com a companhia de centenas de morcegos, e baratas esparramadas pelos banheiros.  Sete homens em uma barraca e seis mulheres em outra.  Maior intimidade, estreitando os laços de amizade. 

A volta à São Paulo não nos separou.

E continuamos amigos. Zé nunca foi o “professor”, o renomado cientista. Sempre foi “gente”, do começo ao fim de nossa convivência.

Continuaram sempre as visitas, primeiro na Vila Olímpia, depois no Parque Continental. Os meninos foram crescendo junto com os nossos, se unindo muito por amizades e fortes sentimentos. 

Muitas vezes mais acampamos juntos: Cabo Frio, Sorocaba, Itu... O camping de Itu nunca foi esquecido. Foi uma cena antológica quando Ayrton, Flavio, Zé e Victor “inventaram” uma conversa para impressionar um vizinho muito metido. Começaram a falar de um suposto trabalho que estariam fazendo de “Empacotamento de Inércia”. 

E falaram durante um bom tempo, usando termos científicos bem precisos, todos dando seus palpites, sérios, compenetrados, mas na maior “gozação”.  Foram tidos como loucos ou grandes cientistas.  Foi memorável. Pena que não foi gravado.  


E então, ele se tornou nosso vizinho de praia, de fins de semana e férias inesquecíveis. Casas idênticas (ambas pré-fabricadas da Bel Recanto) tínhamos até uma abertura no muro para facilitar o vai e vem.  Conversas infindáveis madrugada adentro, música , muita música. Vic imitava com sucesso a Edite Piaff com sua voz rouca e sensual. Violões dedilhados com arte: Ah. o vilão do Ary!!! Tempos dos filhos crescidos, dos netos, de outros interesses.
 


Depois, a surpresa da separação Zé e Vic.   


Mais tarde ele se tornou o Vala da Nisa. 


Algum tempo separados dos amigos, retraídos com a nova situação. Mas, amizade não tem preconceitos. Aceita o que é bom para o outro. E recomeçamos a nos encontrar, aceitando a nova família do Zé e convivendo muito bem. 

Em 1997, Zé perde o filho Leonardo, nos seus 20 e poucos anos.  Estivemos sempre junto com ele.  E então começou a saga de sua doença. 1998, 1999, sempre lutando sempre procurando vencer. Em um agosto de 1999 chegou a ter alta total e ser considerado curado. Comemoramos com a alegria dos amigos em convivência afetiva.   Em outubro tudo volta mais agressivo do que nunca e daí para frente, sempre num crescendo de complicações e sofrimento o Zé foi sendo vencido.  

Lembro bem dos dois, Ayrton e Zé, conversando pelo telefone (já então não podiam mais se ver pessoalmente), sempre realistas, mas sempre o Zé “completamente mais ou menos”. 

Ayrton partiu em 2 de março de 2000. Foi decerto preparar o lugar para o amigo, reservar cadeira próxima para continuar os papos.   Zé não se fez esperar. Em 20 de março partiu também. 

Foi-se um amigo, ficou a lembrança sempre querida do Zé da Vic ou Vala da Nisa. Não importa como for nomeado, será sempre um grande sujeito, um amigo inesquecível.  

                            Ayrton de Carvalho (in memorian) 

                                     Neuza Guerreiro de Carvalho

                                      Novembro de 2003

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