O 
 
 

Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
Memórias & Histórias de Gletianos

 

Uma História "muito" Natural

Mathilde Ranieri Laso            

Era uma vez, um grupo de jovens, desconhecidos entre si, que se matricularam no cursinho da Filosofia, preparatório para o vestibular de História Natural, cujas matérias específicas tinham suas aulas ministradas por alunos dos últimos anos do curso, no casarão da Glette. 

Uma vez ali, fomos nos conhecendo e entrosando até a data do vestibular, compartindo toda a apreensão e nervosismo que este gera. E depois, a ansiedade da espera pela lista de classificação, que revelou que uma boa parte da turma do cursinho, acrescida de alguns alunos de fora, havia entrado na Faculdade. 

Matriculados no primeiro ano, passamos a frequentar diariamente o antigo e belo casarão, infelizmente já demolido;  findo este ano, saímos de férias e ao voltar no ano seguinte, 1955, fomos avisados que a Zoologia e a Fisiologia haviam mudado para o campus da Cidade Universitária, com a indicação de que haveria condução para lá, partindo de Pinheiros. No dia seguinte, todos nós fomos ao lugar indicado, mas como um prenúncio do que iria acontecer muitas vezes, a condução não apareceu. Que fazer? Era dia de aula que não queríamos perder, mas nem ao menos sabíamos onde ficava o campus e como ali se chegava; resolvemos tomar um táxi e dividir o custo entre os que iam.  

Essa chegada não foi bem vista pelos professores porque pela distância acarretaria um alto custo se fosse sempre usada; fomos também avisados de que, caso quiséssemos ir a pé até o Butantã, onde havia condução, o fizéssemos em grupo, com  pelo menos um homem junto.  Depois desse primeiro dia, perdi a conta das caminhadas feitas até lá, rindo, brincando, conversando, formando-se assim uma convivência mais sólida, uma vez que estávamos isolados do mundo. 

Durante todo o ano de 1955, freqüentamos as aulas da Glette e da Cidade Universitária, onde havia dois lugares apenas que eram freqüentados e utilizados: O IPT que se avistava ao longe, e o nosso prédio, ainda não terminado e em condições primitivas. A instalação elétrica para o uso dos microscópios da Zoologia foi feita pelo prof. Cláudio Froelich; fora isso, o que mais se viam eram construções iniciadas, o Matão, barro por todos os lados e mais nada. 

A condução revelou-se um desastre; o ônibus pintado de laranja da Fundação Armando de Salles Oliveira (o laranjinha), vivia mais no concerto do que funcionando, e, já sabendo que havia aula, o pessoal do transporte mandava um caminhão apanhar alunos e professores. Estes, viajavam na cabine com  o motorista e os alunos na carroceria com o ajudante. 

Além da condução precária, tínhamos que levar comida e água, já que não havia bar, cantina ou similar; e ainda agüentar os mosquitos. Portanto, além de pioneiros e “bóias frias” da USP, inovamos também o uso de transporte por caminhão e no uso da carona que persiste até hoje.  Pelos motivos citados acima, as moças foram autorizadas ao uso de calças compridas, causando estranheza nas pessoas, uma vez que não era moda na época o uso dessas roupas.  

Apesar de todos os problemas, conseguimos organizar um baile com o conjunto do André Penazzi, onde mesas, cadeiras, bebidas e sanduíches foram todos obtidos por doação. O baile foi realizado à tarde, terminando às 20 horas, e foi um grande sucesso em animação. 

As condições difíceis e um concerto mais demorado do ônibus fizeram com que o saudoso prof. Ernest Marcus achasse por bem fazer uma prova oral em sua própria casa, que ficou tomada pelos alunos, em todas as suas dependências. 

As dificuldades e aventuras no Campus forjaram amizades duradouras e fortes entre nós, o que perdurou mesmo depois da formatura e permanece até hoje, primeiro entre as moças, e depois, quando fizemos 40 anos de formadas, também com os homens. Foi uma alegria o reencontro depois de muito tempo, mas com a impressão que nos havíamos despedido na semana anterior. Continua esse  espírito muito alegre nos almoços de reencontros nos fins de ano. 

Eu fui trabalhar como professora na rede pública e depois numa faculdade particular, onde também me aposentei. Parei de trabalhar, quando o MEC determinou o fim dos cursos de curta licenciatura.  

Atualmente estou colaborando com a Neuza Guerreiro de Carvalho, que descobriu o “Grupo Figueira da Glete” do qual também fazemos parte. Procuramos por ex-alunos da História Natural, além de tentar dar uma visibilidade maior ao curso que foi extinto com a subdivisão do mesmo em Biociências e Geociências, fato que parece ser desconhecido por muita gente, que não procura saber como era e o que aconteceu com a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. 

Quero deixar aqui os agradecimentos aos geólogos do “Grupo Figueira da Glete, pois foi graças ao plantio da muda da Figueira na Geociências que surgiu a possibilidade de entrar em contato com colegas de várias turmas, além de despertar neles o desejo de um reencontro. Posso dizer enfim, que as raízes da Figueira cresceram e nos abraçaram a todos os que passamos pela Glette. 

Este texto é um resumo da minha memória, histórica e fotográfica dos tempos difíceis no início do Campus Armando de Salles Oliveira, na Cidade Universitária do Butantã.                                                          

Junho de 2004  

 


Início da página

Retorna a página anterior