Grupo Figueira da Glete

  Cantinho dos Gletianos da História Natural, da Química e da Psicologia Experimental
IN MEMORIAN

Ernesto Giesbrecht

             

Dr Ernesto Giesbrecht, discursando durante uma das sessões da  XVIII International Conference on Coordination Chemistry, realizado em São Paulo, em julho de 1977. Local:  Anfiteatro das Convenções da USP -  Cidade Universitária - São Paulo.  Foto, enviada pela Profª. Dra Viktoria Klara Lakatos Osório do IQ - USP
 

Nasceu em Ponta Grossa, Paraná, em 27 de março de 1921.

Iniciou o curso secundário em Curitiba e, em 1932, mudou-se para São Paulo. Completou o ginásio no Liceu Coração de Jesus, na alameda Glette, onde fez também o curso pré-politécnico, preparatório para Engenharia. Ao tomar conhecimento de que o curso de Química iniciava-se no Brasil, ministrado por professores estrangeiros, formados na Alemanha, e que a profissão de químico possibilitava uma carreira muito promissora, prestou o vestibular para a subseção de Química da FFCL-USP em 1941. Em fins de 1943, recebeu o título de bacharel em Química e continuou na Faculdade, como assistente do professor Heinrich Rheinboldt, a convite do mesmo.1

Em 1946, casou-se com Astrea Mennucci, também química “gletiana”. Tiveram dois filhos, a Astarté e o Ralph.

A sua carreira caracterizou-se por uma ascensão exemplar. Tornou-se Doutor em 1947, Livre-docente em 1952 e Professor Catedrático em 1961.

Foi diretor do Instituto de Química da USP (1974-1978) e da FFCL-USP em Ribeirão Preto (1981-1984) e vice-diretor da Escola de Comunicações Culturais (1969-1970), do Instituto de Biociências (1978-1981) e do IQ-USP (1970-1974).

Coordenou o Programa Multinacional de Química patrocinado pela Organização dos Estados Americanos (1969-1975) e o Programa NAS-CNPq, na área de Química Inorgânica, juntamente com o Prof. Henry Taube. Foi fundador e editor de revista de educação e organizador de diversos simpósios internacionais, científicos e de educação, pela OEA, como membro da Comissão de Ensino de Química da IUPAC e como Secretário Geral da Federação Latinoamericana das Sociedades Químicas, FLAQ.

Aposentou-se em 1991, permanecendo no IQ-USP como Professor Convidado.

A sua extensa obra científica encontra-se descrita na ref. 2 e a sua atuação decisiva na renovação do ensino da Química, que se tornou o seu interesse maior, nas refs. 2 e 3.

A sua atuação na esfera internacional, além de estabelecer importantes contatos científicos, permitiu-lhe viajar diversas vezes para o exterior. As viagens foram uma paixão que ele provavelmente trouxe da infância, marcada pelas viagens de trem em companhia de seu pai, Hugo Giesbrecht, então engenheiro sediado na estação ferroviária de Ponta Grossa, no Paraná.3,4

Dr. Ernesto foi meu orientador no doutorado. Em 1976, encontrei-me com ele no dia da apresentação de nosso trabalho num congresso em Quito. Lá, pude testemunhar como ele era respeitado e querido também por seus amigos internacionais e como era procurado por professores que desejavam enviar os seus melhores alunos para uma pós-graduação no Brasil. Naquela época, o “portunhol” e a convivência com pós-graduandos oriundos do Panamá, Colômbia, Equador, alegravam o bloco 2 do Instituto de Química da USP.

Em Quito, fomos recepcionados por um ex-aluno de mestrado, o equatoriano Mario Marin Utreras, de cujo filho o dr. Ernesto era padrinho.

Voltamos juntos para o Brasil, no que tive muita sorte. Marinheira de primeira viagem, não havia declarado na alfândega, na ida, a máquina fotográfica Asahi Pentax, que meu marido me emprestara e da qual era muito zeloso. Conversando com químicos cariocas, já no Equador, descobri minha falha. A viagem de regresso foi interrompida por uma escala prolongada no Rio de Janeiro, à espera de melhorarem as condições climáticas em São Paulo. Enquanto esperávamos no saguão do aeroporto, dr. Ernesto encontrou um amigo que iria fazer a mesma conexão e que retornava da Europa, onde havia participado de uma reunião da Organização Mundial de Saúde. Ele se juntou a nós. Chegando em São Paulo, fomos para a longa fila da alfândega, eu já bastante apreensiva com o meu problema. Não demorou muito para funcionários virem buscar o nosso novo companheiro, portador de um passaporte diferenciado. Ele se recusou a sair, preferindo ficar na fila em companhia do amigo Ernesto. O resultado foi que nós três fomos retirados da fila, recebemos prontamente nossa bagagem e fomos liberados. 

Dr. Ernesto Giesbrecht, um ser humano de uma dimensão extraordinária, como poucos. Um chefe que sabia, como ninguém, delegar tarefas, valorizar e confiar na capacidade de seus subordinados, permitindo o seu crescimento. Um amigo, cuja presença transmitia harmonia, confiança e honradez e cujos olhos azuis transbordavam uma bondade infinita. Tudo isso nós perdemos em 20 de julho de 1996.                                         

                                         Viktoria Klara Lakatos Osorio
                                                   (Química, turma de 1961)

Referências

1.  O desenvolvimento do ensino de química, entrevista com E. Giesbrecht, publicada na Revista IEA-USP, no 22, dez 1994.

2.  Ernesto Giesbrecht, Professor, por A. P. Chagas e H. E. Toma, Química Nova 1991, 14, 149.

3.  In memoriam, por H. E. Toma, Química Nova 1996, 19, 578.

4.  http://www.estacoesferroviarias.com.br 

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