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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

O GRUPO FIGUEIRA DA GLETE
Memórias & Histórias de Gletianos
Série: Histórias e Contos Amazônicos

 

ENTALADO NO CAIXOTE

 

   Roberto Breves Vianna - Geologia - Turma de 62

 

            Na antiga SRAZ - Superintendência Regional do Amazonas, as equipes de campo costumavam acampar nas margens dos rios, os chamados “beiradões” pelos locais.

            Morava-se em grandes balsas, de 100 toneladas, de piso metálico, sobre o qual se edificavam os alojamentos de madeira, geralmente de dois andares e os almoxarifados, oficinas mecânicas, cozinha, refeitórios, enfermaria,  que geralmente nas equipes sísmicas chegavam a alojar cerca de 500 homens e que se deslocavam pelos rios da Amazônia com o uso de rebocadores de até 400 toneladas.

            Tudo era muito bem organizado, os acampamentos dispunham de energia elétrica própria, instalações de água em todos os alojamentos, enfim era uma pequena cidade auto-suficiente  que permanecia, ano após ano, sem interrupções empenhada na pesquisa de petróleo na região.

            Desde aquela época existiam preocupações com a preservação do meio ambiente e prevenção quanto à poluição dos rios.

            Assim, quando a equipe se instalava em rios de correnteza forte, os banheiros eram liberados para utilização total, se é que podemos usar o termo... Quando no entanto se acampava em remansos  ou em lagos era proibido o uso do banheiro para... digamos a eliminação de dejetos...

            Nestes casos, as ordens emanadas de Belém e que eram cumpridas à risca, exigiam a instalação de sanitários em terra, todos eles com instalações de fossas negras as quais, diga-se de passagem não exalavam um aroma muito agradável. Mas, ordens são ordens, cumprem-se e não se discutem e assim se fazia.

            Ninguém se preocupava em instalar vaso sanitário. Isto era um luxo, e homem que é macho (e lá só havia isto) faz suas necessidades de qualquer jeito. Usava-se para a finalidade, um caixote que havia servido para armazenar espoletas elétricas (o SFIDT hoje SFPC nunca apareceu por lá para proibir) e no qual se abria um orifício suficientemente largo para acomodar as bundas... Colocava-se o caixote numa barraca de lona, prosaicamente conhecida como “little-house” e estava feito o sanitário, que isto não merece ser chamado de banheiro...

            Vocês já imaginam a enorme boa (sic!) vontade com que todos cumpriam as exigências da Natureza....

            Bem, certo dia apareceu por lá um supervisor de Belém, famoso por suas enérgicas broncas e que só não era mais grosso por falta de espaço. O homem realmente era daqueles de achar tudo errado e punir, neste mister ninguém ganhava dele. No entanto, era um excelente profissional e todos, embora receosos o respeitavam muito.

            A mãe Natureza não tem privilégios e assim, na manhã seguinte à sua chegada no rio Uatumã lá foi o homem cumprir o dever diário de eliminar o que havia ingerido no dia anterior.

            Caxias do jeito que era, levou um relatório para avaliar, enquanto “passava um telegrama”...

            Esqueci de dizer que o homem tinha cerca de 1m 85cm de altura e pesava quase 100 quilos. Embora, na ocasião estivesse na faixa dos cinqüenta anos, ainda conservava o físico de atleta, que havia sido quando mais jovem.

            O cara entrou na barraca de lona, sentou-se no caixote e iniciou a leitura....       

            Daí a pouco, um grito : – Socorro ! Alguém venha me ajudar!

            Puxa saquismo não havia na equipe. Entreolhamo-nos e decidimos correr juntos, eu e um colega para verificar a razão do pedido de socorro.

            Ao entrarmos na barraca, deparamo-nos com uma cena insólita. Nosso chefe estava entalado no caixote, que fora pregado em dois galhos de arvores dispostos longitudinalmente na fossa. Qualquer movimento mais brusco, os 100 quilos do homem poderiam provocar a quebra dos galhos e o infeliz mergulharia, literalmente na m_ _ _ _ , onde aliás já se encontrava o relatório...

            Não teve outro jeito. Para diversão de toda equipe e registro nos anais da estória, tivemos que desmontar a barraca, passar uma corda embaixo dos braços e içar nosso chefe com o uso de uma talha obtida às pressas na oficina mecânica. Já fora da “little-house”,  o carpinteiro da equipe deu seu jeito e livrou o homem da indesejada vestimenta... Fotografias ninguém se aventurou a tirar, haja vista o olhar furibundo que o homem dardejava em nossa direção...

            A partir deste dia, o item “vaso sanitário com tampa” passou a fazer parte da relação do almoxarifado e deixou-se de usar os caixotes de explosivos para uma finalidade não muito nobre...

            Não precisa dizer que só fomos rir do episódio muito tempo depois que o Catalina - PT AXL decolou  rumo a Belém levando em seu bojo o desastrado supervisor...
 

  Vianna             



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