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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960. GRUPO FIGUEIRA DA GLETE.
NOSSA HISTÓRIA
 

GEOLOGIA NA USP
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 O efeito Glete

Luiz Ferreira Vaz (*)

      O antigo prédio do Curso de Geologia da FFCLUSP situava-se na esquina da Alameda Glete com a Rua Guaianases, no bairro dos Campos Elísios e era conhecido como a Glete.

      A Glete era um palacete da época do esplendor do café com escadas de mármore, vitrais e espelhos importados, pinho de riga nas portas e janelas e, apesar de possuir apenas dois pisos mais um sótão tinha até um elevador. Além do palacete havia, um pátio interno e instalações de apoio.

      Pertencia ao médico e empresário carioca Jorge Street e foi comprado pela USP, quando de sua criação em 1934, para lá instalar sua área administrativa (segundo R. Ellert, in " 0 conhecimento geológico na América Latina", M.M. Lopes e S.F. de M. Figueirôa, Unicamp Campinas 1990). Foi, inexplicavelmente, demolido na década de 70, transformando-se num estacionamento. Sobrou apenas a figueira, uma enorme árvore, tombada pela prefeitura. O local era conhecido como o afloramento da figueira pois, aos seus pés, os professores descansavam as amostras de rochas que coletavam nas suas viagens e que muitos alunos, ansiosamente recoletavam para suas coleções.


       Na Glete funcionava o Departamento de Mineralogia e Geologia do então Curso de História Natural da FFLC. Lá foi instalado o primeiro Curso do Geologia do Brasil, criado em fevereiro de 1957, pouco antes da implantação da CAGE - Campanha de Formação de Geólogos, iniciativa do Governo Federal, que criou simultaneamente as escolas de Geologia de Pernambuco, Bahia, Ouro Preto, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e fez um convênio com o curso de Geologia da FFCL- USP.

       Freqüentei a Glete de 1961 a 1964. Os alunos do primeiro ano tinham dois dias de aula na Glete dois na Cidade Universitária e meio dia na Maria Antônia, mas a partir do segundo ano todas as aulas eram na Glete. A Maria Antônia era o prédio principal da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) e recebia essa alcunha por situar-se na rua do mesmo nome.

        Para se compreender a Glete é necessário entender a época, seus costumes e sua sociedade.

       Uma idéia pode ser dada pelo fato de que na minha festa de bicho, realizada numa noite de abril de 1961, o traje dos bichos e veteranos era terno completo, com gravata. Havia também 500 litros de chope absolutamente grátis, música de rádio-vitrola e mais de 200 pessoas. Até 1964, quando me despedi da Glete, havia mais de 300 litros de chope nas festas, sempre grátis.

       Na minha festa de bicho, a Glete foi palco de sua maior briga. Tudo começou quando alguém, intitulando-se veterano, tentou tomar meu copo de chope. Perguntando a alguns veteranos que conhecia, descobri que não era verdade e reagi. O impostor já estava na mira de alguns veteranos e estabeleceu-se a confusão. O rapaz fugiu, mas voltou, algum tempo depois, com alguns asseclas, armados com garrafas e paus. A briga estendeu-se por mais de três horas, dentro e fora da Glete e terminou com a fuga dos invasores, perseguidos até a Barão de Limeira. Há colegas que, até hoje. ostentam as cicatrizes da luta. Estas e muitas outras histórias semelhantes fizeram a fama da Glete e da Geologia como uma turma da “pesada”. Essa fama decorria, também, do fato do curso ser constituído, na época, quase que exclusivamente por alunos do sexo masculino, um grande contraste com os demais cursos da Maria Antônia, onde predominavam as meninas.





      Já famosa em 1961, a Turma do Sereno foi outra marca registrada da Glete. Formada pelo grupo especializado em abrir barris de chope sem perder uma só gota, a Turma não era formalmente constituída e seus integrantes variavam com o tempo. Eram os últimos a sair das festas e, muitas vezes, se envolviam com a polícia, por pertubar o sono do governador do Estado, que residia no palácio dos Campos Elísios, situado na esquina da Glete. Estavam sempre dispostos a gozar. cantar e brigar. A Turma do Sereno começou a sair da escola em 1962 e, em 1964, quase não havia mais exemplares desses épicos.

       Havia também as meninas da História Natural, que era o nome dos atuais cursos de Biologia. Como tínhamos aulas com elas na Cidade Universitária e elas conosco. na Glete, muitos geólogos formados nessa época casaram-se com naturalistas. No curso mesmo havia poucas mulheres. Uma das primeiras foi a da minha turma, Maria Sziskzay. Na Glete também funcionava o curso de Química da FFCL, mas geólogos e químicos não se davam muito bem e estes viviam praticamente reclusos no seu prédio.






       No período de 1961 a 1984 vários colegas formados tomaram-se professores-assistentes e, como haviam sido contemporâneos dos alunos mais novos, existia muita camaradagem entre os alunos e esses professores. São dessa época: Faustino, Rocha Campos, Cordani, Aledir, Valarelli, Fúlfaro, Yociteru, Damasceno, Helmut e outros. 0 curso era ministrado pelos professores egressos do Curso de História Natural da FFCL e pelos professores americanos do acordo MEC/USAID.

       0 papel dos americanos foi muito importante, já que eram todos geólogos experientes, funcionários do USGS por longos anos. Transmitiam conhecimentos práticos, obtidos no dla-a-dia com serviços de campo. 0 mais requerido pelos alunos era o professor John Starck, um velhinho de 70 anos, que não falava português mas que, com vasta experiência, conseguia introduzir os alunos nos mistérios do mapeamento geológico e da Geologia. Que eu saiba, foi o único professor, até hoje, que recebeu uma homenagem expressa dos alunos, com direito a placa de prata e diploma de sócio honorário do CEPEGE.

        0 que mais se vinculou com o Brasil foi Gene Tolbert, que deixou o curso em 1964 mas voltou com a Meridional, em 1966, transformando-se no mentor de toda uma geração de geólogos de mineração. Em 1981, quando eu e o Romualdo H. Paes de Andrade com eles estivemos, no USGS, em Washington, ele nos mostrou, de seu arquivo pessoal, o original do mapa onde foram demarcadas as áreas para os pedidos de pesquisa do que viria a ser a maior província ferrífera do mundo, Carajás. Não sei se este documento, de valor histórico inestimável, ainda se encontra com seus descendentes.

        Controlando tudo, o professor Viktor Leinz, criador do curso de Geologia da USP, impunha seu ritmo, ao estilo dos catedráticos absolutos da época. Este era o curso: autoritário e de alta qualidade, com alunos, rebeldes, dispostos a mudar. Em 1963, entramos em conflito com o Leinz e ele acabou deixando a coordenação do curso. Olhando retrospectivamente, creio que o curso perdeu muito com sua saída da direção.






       0 efeito Glete, provavelmente, jamais se repetirá. Ele foi produzido pelo fato dos alunos permanecerem juntos num espaço pouco maior que 200 m2 (a área total da Glete era maior, cerca de 1.000 m2, mas os alunos viviam no pátio, no restaurante e na sala de jogos). Como a maioria era do interior e morava em pensões e repúblicas, muitos tomavam café, almoçavam e jantavam na Glete, ali permanecendo por mais de 12 horas seguidas, diariamente. Todos se conheciam, até nos mínimos detalhes, do tipo a meia de hoje é a mesma de ontem. Em conseqüência, a comunicação era intensa, as amizades se solidificavam e a unidade do grupo muito forte. Aliás, a garra e a união tornaram-se as principais características da Glete. Muito do espírito da Glete perdeu-se nos espaços imensos da Cidade Universitária, para onde se mudou o curso. Todos os alunos participavam ativamente da vida escolar. Nas eleições de 1963, para a diretoria do centro acadêmico, o CEPEGE (Centro Paulista de Estudos Geológicos), participavam duas chapas e votaram 126 alunos, ou seja, praticamente a totalidade dos alunos do curso (na época eram cerca de 30 alunos por ano e 4 alunos por curso). Na maioria das assembléias havia mais de 60 alunos presentes e, em muitas delas, mais de 100 alunos participavam. Em muitas assembléias do CEPEGE, os professores compareciam (até o Leinz esteve em algumas), principalmente quando o assunto envolvia o curso ou problemas profissionais. Logicamente, havia brigas, discussões e desentendimentos. Mas só internamente: frente a qualquer ameaça externa, todos se uniam.

       O CEPEGE funcionava num cantinho da Glete, numa sala de 2 por 2m. Vivia da anuidade dos sócios, praticamente todos alunos. Era um centro cultural-acadêmico, no estilo da época, que emitia carteirinhas (que valiam meia entrada nos cinemas), fazia flâmulas e blusões. Em 1962. o CEPEGE já tinha uma revista (Mente e Malleo), um jornal (0 Brucutu) e fazia apostilas. Em 1963, o CEPEGE, usando seus fundos, criou o Banco do CEPEGE, que emprestava pequenas quantias, sem juros, aos alunos. Em 1964, estava editando um livro de foto-geologia que acabou empastelado quando a polícia invadiu a FFCL, na Maria Antônia. Por falar nessa época, nada aconteceu na Glete, exceto o encerramento abrupto de uma assembléia que se realizava no dia 3 de abril, quando correu o boato (certamente espalhado por alguém da Turma do Sereno), de que a Glete estava sendo invadida pela polícia. Não houve nenhuma invasão e ninguém da Glete foi preso ou molestado, apesar de muitos envolvidos com a militância estudantil, como eu, terem posto suas barbas de molho.

       Já em 1962, o CEPEGE envolveu-se na primeira disputa profissional, ao engajar-se na luta pela regulamentação da profissão de geólogo. Cada aluno enviou um telegrama ao Congresso pedindo a aprovação da lei, o que ocorreu em junho de 1962, através da Lei 4.076. Essa lei é, praticamente, uma cópia da resolução nº 120, do CONFEA, de 1959, e até hoje não consegui descobrir quem a levou ao Congresso.

      Também é pouco conhecida a história da CAGE, não se sabendo ao certo quem teve a iniciativa de criar a campanha que implantou e desenvolveu os cursos de Geologia no Brasil. Há uma versão de que a CAGE foi sugerida por um geólogo americano, que trabalhava no projeto Quadrilátero Ferrífero e teve, acesso ao então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubistchek. Quando Juscelino tornou-se presidente, a idéia foi levada adiante; porém, como e por que não são fatos conhecidos. Segundo outra versão, a CAGE foi obra de setores nacionalistas, preocupados com o desconhecimento do potencial geológico brasileiro. É importante resgatar essa história que certamente alguém conhece, já que, de alguma forma, todos os geólogos brasileiros são fruto da visão dessa pessoa ou pessoas.

       Mas, voltando à Glete, o movimento pela lei de regulamentação despertou o espírito combativo dos alunos. Daí para frente o CEPEGE envolveu-se em lutas sucessivas, das quais as mais importantes foram o movimento pela manutenção do currículo mínimo, as lutas por verbas com o esvaziamento da CAGE e a realização da DIVULGEO (Campanha de Divulgação da Geologia). Começou nessa época a articulação dos alunos das várias escolas de Geologia, que levou à fundação da ENEGE (Executiva Nacional dos Estudantes de Geologia), em 1963, em Salvador.

        A DIVULGEO retrata bem a preocupação dos alunos com a profissão. Essa campanha surgiu sem querer, quando, em fins de 1962, o Eduardo C. Damasceno, o Hiroyoshi Onishi e eu fomos ao Rio de Janeiro, brigar com o Conselho Federal de Educação (na realidade, com o professor Maffei, da Politécnica da USP), que queria reduzir nosso currículo escolar para três anos e retirar todas as matérias profissionalizantes. Com tempo livre, fomos à Petrobras, pedir dinheiro para nossa revista Mente et Malleo.

       Fomos atendidos por alguém do DEPEX que, para nossa decepção, não demonstrou nenhum interesse pela revista. Já estávamos desistindo, quando tive a idéia: e se fizéssemos uma campanha para divulgar a Geologia e a Petrobras junto às escolas secundárias do estado de São Paulo?

      A idéia entusiasmou e foi aceita algum tempo depois. Em abril de 1963, iniciamos a organização e, em setembro, 20 alunos da Glete percorreram 79 cidades do Interior de S.P. e do norte do Paraná, realizando 140 palestras para cerca de 24.330 alunos do curso secundário! Tudo foi planejado, organizado e realizado pelos alunos; a Petrobrás contribuiu com um folheto sobre a Geologia, que ajudamos a redigir, e com a verba para viagens e estadias.

       Há muitas e muitas histórias sobre os escuros e tortuosos corredores da Glete, algumas impublicáveis, certamente, mas todas merecendo ser preservadas. Histórias e tradições semelhantes refletem a luta pela implantação de todas as demais escolas de Geologia. Resgatar essas hìstórias é um compromisso de todos nós com o futuro. A associação dos Ex-Alunos de Geologia da USP (AGUSP), recentemente fundada (endereço: DGE/IGC-USP, Rua do Lago 562, Cidade Universitária, 05508-900, São Paulo - SP), está trabalhando na criação de um Centro de Preservação da Memória Geológica Brasileira, destinado a preservar as tradições e histórias dos geólogos e da Geologia brasileira. Entre em contato e conte a sua história.

       (*) Geólogo da Themag Engenharia Ltda

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Artigo publicado:
REVISTA BRASIL MINERAL Nº 143  -  PELAS PEDRAS DO CAMINHO MINERAL