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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960.

 GRUPO FIGUEIRA DA GLETE

 Memórias & Histórias de Gletianos

  

Glete, sala nova e canoa do Stark  

   Eduardo Damasceno Camilher 
Geologia - Turma de 62  

A história do Curso de Geologia da USP transcorreu entre a metade final da década de 1950, durante e até o final do decênio de 1960, nas instalações da Alameda Glete, no bairro dos Campos Elísios, de quina com o Palácio dos Campos Elíseos, antiga sede do Governo do Estado de São Paulo e defronte o Colégio Loreto. Ao final dos anos 60 e início de 70, o Curso de Geologia foi transferido para a Cidade Universitária.

O imponente edifício da Glete pertencera a um "barão do café", decerto uma luxuosa residência, antes da sua adaptação para abrigar os Departamentos de Geologia e Paleontologia, Biologia, Botânica e Química da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP - FFCLUSP. O Curso de Geologia foi criado no âmbito do Departamento de Geologia e Paleontologia, com o ingresso da primeira turma em 1957.

O portão principal do prédio era imponente, havia vidros lapidados de cristal importado e ambientes internos finamente decorados, merecendo destaque o espaço que era ocupado pelo Museu de Mineralogia. Havia antigas estrebarias, amplo pátio interno, um elevador com porta pantográfica — provavelmente um dos primeiros a serem instalados em São Paulo — e a imponente figueira, um patrimônio histórico e que constitui, hoje, a única lembrança e relíquia que restou da imperdoável demolição do prédio da Glete. Ao pé desta figueira existia uma placa de bronze onde estava gravado um poema àquela frondosa árvore e que constituía o marco comemorativo da passagem do Imperador D. Pedro pelo local. No entorno da árvore acumulava-se a "Formação Figueira", um inusitado e interessante depósito de amostras de minerais e de rochas refugadas e inservíveis para as coleções didáticas e de pesquisa. Era comum encontrar calouros revirando-a, à procura de amostras interessantes para as suas coleções particulares. A placa de bronze com o poema não existe mais, tendo sido certamente roubada e vendida como sucata, e no terreno vazio em que se erguia o prédio funciona hoje um estacionamento para autos! Deplorável sinal dos tempos e de falta de preservação da memória!

Além da Geologia, funcionavam na Glete outros cursos vinculados aos demais Departamentos da FFCLUSP. Alí conviviam os jovens da geologia, as meninas da história natural e da biologia e os sempre estudiosos químicos, com os seus inconfundíveis aventais brancos, dia e noite envolvidos com os laboratórios. Grandes amizades e até alguns casamentos, greves, festas, reuniões no CEPEGE, ressacas da "turma do sereno", o almoço no restaurante da Dona Avelina e da sua filha, trotes e outros episódios fervilhantes e inesquecíveis faziam da Glete, mais do que um local de estudo, um "estado de espírito". Nas ruas próximas da Alameda Glete pontilhavam as pensões e "quase-repúblicas" habitadas pelos estudantes, a grande maioria originária de cidades do interior, a exemplo da Gruta do Brucutu, da pensão do Afonso Rodrigues Rosmaninhos (Rua dos Guaianazes, 1032) e do apartamento do saudoso Roni.

Reinava grande amizade entre mestres e alunos e o salutar respeito aluno-professor, apesar das desavenças usuais. Saldanha da Gama e o seu ordenança, o Rêgo, Rui Ribeiro Franco, Willian G. Rolim de Camargo, Viktor Leinz, Josué Camargo Mendes, João Ernesto de Souza Campos, Henri Mau, Setembrino Petri, "Serjão" Estanislau do Amaral, Geraldo Melcher, Dona Dirce e o Mauro, o colega-motorista do ônibus, além de Antonio Brito e Clodovaldo Pavan, da Biologia e Simão Mathias, Ernesto Griesbrecht, Geraldo Vicentini, Madeleine Perrier, da Química, e muitos outros — sem esquecer o Tito, Reinaldo, os saudosos Nabor e Faustino e os docentes-colegas contemporâneos Melfi, Girardi, Cordani, Celso, Davino, Rocha Campos e os falecidos Valarelli e Altamir, graduados na primeira turma de 1960 — engrandeciam a Glete. Além destes, havia um grupo de mestres não-brasileiros que vieram ensinar tópicos das ciências geológicas ainda pouco desenvolvidos no País: Gene E. Tolbert (geologia econômica), Norman Herz (geoquímica), Rudolf Kollert (geofísica), John Stark (geologia estrutural) e Mauro Ricci (aerofotogrametria e fotogeologia). Alguns deles gostaram tanto do nosso país que se "abrasileiraram", caso do Tolbert.

No início dos anos 60, mesmo com a transferência da Botânica e da Biologia para a Cidade Universitária e com a ocupação do espaço vago pela Geologia, a Glete ficou pequena diante do crescimento do número de alunos, de docentes e de laboratórios. Por outro lado, as reduzidas salas da antiga mansão não comportavam mais as salas de aula. A solução encontrada foi a de construir uma nova sala, bem ampla, que ficou conhecida como "Sala Nova", no pátio interno. Para tanto foi demolida uma estufa que ali existia, uma herança da Botânica e que foi usada, algumas vezes, como reduto para acalmar o ânimo de "bichos" mais recalcitrantes e exaltados durante os trotes. Embora prometida, a construção da nova sala esbarrou na falta de verbas. A demora na sua edificação incitou a mobilização dos alunos, tendo sido declarada uma greve para se conseguir a sala. Foi intensa a movimentação do CEPEGE e dos alunos, apoiados, veladamente, pelos mestres, igualmente interessados na ampliação e melhoria das instalações didáticas. Afinal, a "Sala Nova" acabou sendo construída e inaugurada com festa. A partir daí passou a ser o cenário de inúmeros fatos inesquecíveis, além das aulas. Um destes episódios foi o da despedida do professor John Stark, que deixava a Glete para retornar aos Estados Unidos.

O professor Stark, norte-americano, lecionava Geologia Estrutural e, como não falava português, ministrava as aulas em inglês. Os alunos sofriam com isso, fato que era atenuado com o auxílio do Reinaldo Ellert, assistente do Stark. No entanto, o mestre adotava um excelente livro texto, o Structural Geology, de M. P. Billings — até hoje guardo o meu exemplar — cuja leitura ajudava muito. E logo o Fernando "Casado" providenciou a versão do livro para o vernáculo, na forma de uma apostila.

O professor Stark era extremamente organizado e as suas aulas práticas e de campo eram excelentes. Exigia perfeita caderneta de campo, à qual atribuía nota, além de relatórios. Era idoso, de baixa estatura. Passara algum tempo no Curso de Geologia de Recife e, vindo para a USP, morava num moderno apartamento da Avenida Higienópolis, em companhia do Aluizio "Pernambuco", que era um misto de mordomo e de motorista, que cuidava do mestre e também pilotava uma caminhonete Chevrolet Apache. O Pernambuco era boa pessoa, muito afável e amigo dos estudantes. No entanto, gostava de uma cachaça e nunca tomava água! Consta que o seu cantil, durante as viagens, estava cheio de caninha! A melhor hora dos trabalhos de campo era a do lanche: o Pernambuco escancarava a porta traseira da Apache, estendia uma toalha, preparava o lauto lanche para o mestre e convidava os alunos que os acompanhavam, os quais nunca se negavam a participar. O deleite era grande, pois os nossos sanduíches frios — recordo-me daquele de fiambre que nos foi fornecido diáriamente, durante quase um mês, no estágio curricular realizado em Apiai, em julho de 1961, e do qual nos livramos somente quando se esgotou o estoque de dez caixas de fiambrada, compradas pelo Faustino Penalva — eram enriquecidos com finas iguarias.

Em 1964, se não me trai a memória, o professor Stark ia retornar aos Estados Unidos e o corpo discente e docente decidiu homenageá-lo com uma festa de despedida, na Sala Nova, evidentemente. A despedida foi organizada pelo CEPEGE e deveria ser dada uma lembrança ao mestre. Discutiu-se muito qual deveria ser o presente, recaindo a escolha em lhe oferecer uma canoa, daquelas cavadas em um tronco de árvore, muito usada pelos pescadores nos rios e na costa. Essa boa e inusitada sugestão foi dada pelo professor Melcher, que tinha conhecimento da predileção do Stark pelo canoísmo, pois ele morava nos EUA, à margem de um lago, onde costumava andar de caiaque. Uma canoa foi, então, adquirida de um pescador no Saco da Ribeira, Ubatuba, com a interveniência do autor deste texto que, naquela época, realizava pesquisas no litoral Norte do Estado, transportada para a Glete e presenteada ao Mestre Stark, no dia da sua festa de despedida. E o saudoso professor ficou grato e emocionado, levando o presente para os Estados Unidos, como parte da sua bagagem.

Alguns anos mais tarde, recebemos a notícia de que ele estava usando a canoa em seus passeios pelo lago.


Artigo publicado na Revista Brasil Mineral
Seção: Pelas Pedras do Caminho Mineral
Edição 199, Outubro de 2001


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