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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960. GRUPO FIGUEIRA DA GLETE.
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O Tempo Vivo da Memória
César Ades



[...]  Terminarei esta resenha (que mais do que uma reflexão sobre a mensagem de Ecléa é uma reflexão de sua mensagem) com lembranças e uma árvore, uma figueira. As lembranças remontam às aulas de Psicologia Experimental que tivemos como alunos de uma das primeiras turmas de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Era no início da década de 1960, não há como esconder as datas, não é ? O curso dispunha de algumas salas, num belo prédio tradicional (o antigo Palacete Jorge Street) da alameda Glete, esquina com a rua Guaianazes, onde os cursos da Geologia, da História Natural e da Química também funcionaram. Descíamos alguns degraus – era o porão do prédio – e entrávamos numa sala com uma mesa central, ao redor da qual cabia toda a turma, eram poucos os alunos ! para aulas sobre percepção, aprendizagem, psicologia comparativa. Alí, soubemos das idéias dos gestaltistas Koffka, Köhler, Lewin e também nos iniciamos na Etologia com Tinbergen e Lorenz. A sala, assim como outras  menores, serviam de laboratório, no final do corredor foi instalado o sauveiro do Professor Walter Hugo de Andrade Cunha, onde, nos tubos e panelas de vidro, as formigas nos deixavam admirados com o  seu incessante labor. Sentados à mesa de seminário, em reuniões à parte que marcávamos à noite, Walter, Arno Engelmann e eu discutíamos o modelo teórico de Miller, Galanter e Pribam, tal como exposto no livro Plans and the Structure of Behavior, em prenúncio do cognitivismo. Fernando Leite Ribeiro, Katsumaza Hoshino, Alcides Gadotti e eu lá planejamos um experimento sobre mapas cognitivos em ratos, de inspiração tolmaniana, só muito mais tarde realizado. Em duas salinhas, instalei um biotério improvisado e o meu primeiro laboratório, no qual fui investigando com curiosidade a natureza do comportamento exploratório. O espaço era pouco mas extraordinária a densidade de idéias, não nos abandonava um instante o senso de conquista intelectual. Há muito mais a dizer sobre a Glete como origem do que hoje são linhas de ensino e pesquisa no Instituto de Psicologia, mas deixemos isso para outro depoimento. Quero evocar o portão com uma  guarita por onde entrávamos na Glete, e a bela figueira que ficava, na extremidade do pátio, perto do muro, expandindo seus galhos e sua  folhagem para fora, formando uma cobertura para a calçada.

No começo dos anos 1970, sem motivo válido, atingindo a  memória que lá se encontrava, foi destruído o palacete para dar lugar a um estacionamento de carros. Mas sobrou a figueira, fui visitá-la, há carros por toda a volta, mas ela ainda está bela e frondosa e o pessoal do estacionamento sabe que alí esteve, um dia, a Faculdade. E um dia, recebi mensagens e, depois, a visita de uma pessoa notável, que é Neuza Guerreiro de Carvalho, da turma de 1951 de História Natural, na Glete. Portanto, gletiana (glettiana ?) de primeira linha.  Vovó Neuza tem batalhado para recuperar a memória da Glete, contactando e reunindo os ex-alunos dos diversos cursos, em torno da figueira, agora um símbolo. Colegas geólogos, em trinta de maio do ano passado, plantaram, frente ao Instituto de Geociências, onde está agora, verde, vicejando, um broto da figueira da Glete. Outro broto da figueira ainda há de crescer nos gramados do nosso Instituto, como marco de memória e de identidade. Como raiz. [.]

César Ades


César Ades é Professor da Psicologia Experimental da USP.

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Parte final da resenha sobre o livro de Ecléa Bosi (da Psicologia Social) "O Tempo Vivo da Memória" publicado pela Revista de Psicologia da USP.
Fonte: E-mail do Prof. Dr. Cesar Ades de 03 agosto de 2004