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Brucutu - Símbolo da Geologia da USP - Adaptado do original de Jack $ Carole Bender pelo então estudante Fernando Pellerim de Araújo da primeira Turma, formada em 1960. GRUPO FIGUEIRA DA GLETE.
NOSSA HISTÓRIA
 

 ENTREVISTAS & ARTIGOS

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O Instituto de Psiciologia
Ecléa Bosi
 

 
Quando Lévi-Strauss recorda em Tristes trópicos os jovens de São Paulo, evoca os nomes de seus encantadores discípulos como flores de um fresco ramalhete; o primeiro nome evocado é Annita. Trata-se de Annita de Castilho e Marcondes Cabral, a criadora do curso de Psicologia.

Os primeiros psicólogos tiveram de ser autodidatas que abriam seu caminho antes do aparecimento das Faculdades. Era na Escola Normal que se estudava Psicologia: ali se formaram os primeiros laboratórios e por ela passaram Claparède, Henri Piéron, Helène Antiproff, Köhler e outros nomes ilustres, voltados em geral para o tema da Educação. Dali surgiram os que impulsionaram a nascente Psicologia: Lourenço Filho, Noemi Silveira Rudolfer, Virginia Bicudo, Betty Katzenstein... Esta tradição vem sendo mantida pelos nossos pesquisadores da área de Psicologia do Escolar.

O engenheiro suíço Roberto Mange orientava, já em 1926, grupos de pioneiros na Psicologia Industrial.

Quando foi fundada nossa Faculdade, a Psicologia tornou-se matéria obrigatória nos três primeiros anos de Filosofia.

Entre 1935 e 1944, Jean Maugüé ensina Psicologia; aluno de Brunchvig e Charles Blondel, suas aulas abordavam a percepção, a memória, a vida afetiva... Discutia com os alunos a teoria da Gestalt, a Psicanálise, a Fenomenologia. A partir de 45, chegou-nos Otto Klineberg, cuja orientação, em suas grandes linhas, ainda hoje seguimos.

Nossa fundadora foi aluna dileta de Maugüé, Bastide, Lévi-Strauss e, nos Estados Unidos, de Koffka, Heider, Wertheimer, teóricos da Gestalt. Em 1953, ela propõe à Congregação da Faculdade a criação do curso de Psicologia e, em 1957, inicia junto à sua Cadeira uma especialização em Psicologia Clínica.

Estava criado o curso de Psicologia na saudosa Maria Antônia, onde fomos alunos de Filosofia com Cruz Costa, de Antropologia com Egon Schaden e Gioconda Mussolini, de Sociologia com Ruy Coelho.

A Psicologia Experimental era dada por D. Annita em seu pequeno laboratório da alameda Glete. Alunos de outros cursos tentavam avançar sobre aquele espaço que cobiçavam. Ela nos ensinou, com picareta e enxada, a cavar no pátio uma trincheira para defendê-lo.

Tínhamos Psicologia Social numa casa simpática da rua Cristiano Viana, algumas vezes sentados na grama, à sombra das árvores do quintal. Desconhecíamos xerox ou apostilas; líamos líamos na íntegra Adorno e Bergson, Heidegger e Scheler como primícias da ciência psicológica, já nos primeiros anos.

No Hospital Psiquiátrico de Vila Mariana, assistíamos às elegantes preleções do professor Cícero Christiano de Souza. Ouvíamos com assombro dizer que o professor Durval Marcondes se correspondera com Freud. E o sapiente mestre Anibal Silveira nos introduzia nos claro-escuros do teste Rorschach.

A Psicologia Clínica estava sediada na rua Jaguaribe. Acresce que os estágios de Psicologia do trabalho eram feitos na Volkswagen, em São Bernardo, nas férias de julho, e lá íamos nós, em ônibus da fábrica que nos recolhia ainda à luz das estrelas. Não nos faltavam, pois, trajetos a percorrer nesse curso itinerante.

Em 1961, chega dos Estados Unidos o professor Keller, que abriu novos rumos à Psicologia Experimental nela formando um grupo behaviorista que ficou sob a orientação de Carolina Martuscelli Bori. Formou-se ali também com o professor Walter H. de Andrade Cunha uma linha independente de etólogos.

O Instituto de Psicologia começou a existir em 69: estava cortado o cordão umbilical com a Filosofia, ao menos espacialmente. Da rua Maria Antônia, mudamos para os precários barracões à beira do rio, aqui na Cidade Universitária. Seu primeiro diretor foi o professor Arrigo Angelini.

D. Annita havia sido alijada por grupos fanáticos que repudiavam o lastro filosófico da Gestalt. Antes que sua entrada nas classes fosse barrada pela força, pude assistir ainda suas últimas aulas no apagar das luzes.

Nessa escura época da repressão política, a colega Iara Iavelberg partiu para a luta clandestina e, hoje, nosso Centro Acadêmico tem o seu nome. Foram anos de resistência e perseguição em que perdemos alunos queridos.

Hoje o Instituto tem quatro Departamentos:

- Psicologia Experimental;

- Psicologia Clínica;

- Psicologia da Aprendizagem, Desenvolvimento e Personalidade;

- Psicologia Social e do Trabalho.

E temos serviços de atendimento à comunidade quer na área terapêutica, quer na de orientação e seleção profissional.

Embora jovem, a Psicologia tem já sua memória e se honra de ter contado entre seus professores com Dante Moreira Leite, autor de O caráter nacional brasileiro. Estudioso do preconceito e do etnocentrismo, foi superador de uma ideologia tenaz: a do caráter nacional. Em 1971, Dante repetiu com seus alunos no Laboratório de Psicologia Social a experiência famosa de Asch sobre o conformismo, na qual o sujeito nega o que seus olhos vêem, sob pressão do grupo. Na juventude contestadora da época, encontrou índice de obediência ao grupo, de submissão à maioria, ainda mais alto que no experimento clássico. Se o resultado nos deixou boquiabertos, Dante não ficou deprimido. Ensinou-nos que devemos voltar a atenção para quem não foi esmagado pela maioria, para o dissidente que procura solitário a liberdade de perceber num mundo adverso.

Estes foram e continuam sendo nossos mestres.


Ecléa Bosi é professora do Instituto de Psicologia da USP.

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Artigo publicado pela REVISTA IEA - USP -  Nº 22 - Dez. 1994
Fonte: Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo